22.12.09

Olhe, bem.

— Podes vir, moça bonita.
— Sinto-me estranha, há muitos não sei se meu regresso é desejado.
— Olhes bem para esta boca de dentes expostos e responda-me tua pergunta.
— Tu sempre foras gentil, mas sei que de tanta gentileza não cabe tanta verdade.
— Olhes bem para esta mão de dedos trêmulos e responda-me tua pergunta.
— Sei que tu tens mania de tremer quando estás nervoso...
— Olhes para o brilho que emana de meu olhar e responda-me tua pergunta.
— De felicidades tu és feito, de luz tu és intenso.
— Olhes bem para dentro deste meu peito de coração palpitante de amor teu, mas olhes com pureza e leveza, vejas quanto isto permanece aqui comigo.

(...)


— Como é doce a volta ao nosso lar, meu amor.

10.12.09

Sinta.

Resumidamente: abra, e estique cuidadosamente esta fita que entrelacei com pensamentos entrelaçados aos seus abraços fugazes. Podes fazer o mesmo com aquela outra que enlaçava cá esta que tu desfizeste de sua beleza. Puxes. Percebas quanto poder paira sobre suas mãos, sinta o pesar da responsabilidade que te presenteia neste momento. Desembrulhe o embrulho onde [me] escondi esta importância em miniatura para que tu possas arbitrar o novo rumo que direcionei em teus braços. Abrace. E Ponhas a caixa acima de teu colo que por noites fiz de minhas almofadas e de suas carícias meu aconchego. Chegues perto. Tentes espiar por entre buracos que milimetricamente planejei, pois bem sei acerca de tua ansiesade. Agora que tu já sabes o que te espera, não desistas, vá, ande. Abra. Retires o lacre, o obstáculo que em nossas vidas impedia-me de te encontrar por estas estreitas ruas que modelam um labirinto-sem-saída. Ponha-te firme. Cautelosamente, ponhas tuas mãos frias e trêmulas dentro deste caixote que contém aquilo que possas ser o presente mais bem dado por alguém que sofre de silêncios teus. Pegues. Sinta o perfume forte que ao longo do presente espirrei para que tu possas sentir a fragância que me lembras você. Sinta-te. E deixes teus olhos brilharem por ao menos frações destes segundos que se não fosse tão dramático, daria meus olhos e os colocaria neste embrulho, para presenciar tua surpresa ao deparar com minha relíquia. Vejas bem, moça, há contigo, agora, um coração. Que pulsa, que estremece, que fraqueja, que sente. Sinta, moça. Fraqueja, moça. Estremeça, moça. Pulse, moça. Ame.

26.11.09

Passos pelos campos

Bem me faz tu quando insistes em caçar meus rastros em outras trilhas. Deixo úmida minha pegada, forço minhas pisadas, e sigo este meu trajeto, reto, nada correto. Não dou cabo de minhas marcas, exponho-as, e que tu encontre-as rapidamente, ou demores um pouco, deixando-me saborear esta mistura doce do reencontro com o amargo da saudade. Podes caminhar ao lado de meus desenhos perfeitamente delineados à terra fresca, podes traçar teu destino paralelamente ao meu. Somos retas, e paralelas. Não nos encontramos... Tu consegues bem seguir meus passos, sinto tua presença a cada passo milimetricamente dado em minha direção. Mas estes meus rastros que deixo ruas afora estão em outros campos, em outras terras. Aqui, perto de mim, há apenas pegadas no asfalto. Não há como enxergar estes meus passos. Ainda deixo minha esperança solta pelos campos, um atalho. O atalho que te ensinas a chegar nestas trilhas distintas do meu andante coração.

24.11.09

Calo-me e tu falas por mim

Você some.
Me consome.
Sabe que não é assim.
Gosta de pertubar a mim.
Nesse jogo de gato e rato.
Não me dá papo.
E a gente vai vivendo
E se entendendo, assim...


por Felipe Garcez

18.11.09

Deixe-me.

Deixe-me, logo. Deixe-me partir de vez. Deixe-me perambular em outros mundos fora dos teus, deixe-me viver em paz. Deixe-me ausentar de tua vida cheia de graça de tuas felicidades, de teus vícios, tua vida, esta, que me alimentou por tantas noites vazias em claro. Deixe-me tentar te esquecer por três dias apenas, deixe-me, e se eu assim for capaz, não me busques não. Se não capaz, deixe-me, ao menos por poucos segundos, entrar em teus comandos, descobrir teus encantos, viver em teu canto. Deixe-me entender o porquê desta mania de desencontros. Deixe-me entender tuas inconstâncias e teus desapegos. Deixe-me entender-te logo, quem sabes assim eu não passe a compreender tudo que sinto e escapo de ti, de tudo que nos chama, deixe-me ser água que corre pelos canos, deixe-me fluir. Deixe-me fechar os olhos e por um instante, não pensar em ti. Deixe-me ou não me deixes de vez. Não me deixes, portanto, assolar-me de teus atos, de teus estados, de tuas vidas. Várias vidas. Deixe-me te amar todos os dias, faças a mim promessas diárias e cumpra-as. Não me deixes esperando... não me deixes mais, ou me deixes sempre, e deixes a vida me ensinar a viver sem ti.

Deixe-me. Deixe-me. E saias de mim.

16.11.09

Chove lá fora.

É frio. E venta. Desesperanças e sonhos fugazes inudam toda a rua que se faz estreita ao passos cambaleantes deste instável rapaz cheio de ventania. É escuridão. E o sereno sussura aos ouvidos dele que o perigo se aproxima de forma estratégica, aguardando o tempo exato entre o escorregar e o cair neste beco escuro de luzes distorcidas e fracas. Ele se manteve firme ao passar pelo declive que o pegou desprevinido naquela rua conhecida ao dia, estranha e inesperada à noite. É noite. E o som dos sinos da meia-noite ecoa por toda a cidade como um aviso prévio, um alarme. E ele já não se importa mais. Procura, como quem caça um abrigo em meio a tempestades, um canto para se entregar e se deixar devorar de vez, em uma única tentativa. Não foge. Na descida da rua de altos e baixos ele caiu.

Quis analisar se era o certo a fazer, e não fez. Ficou por horas a fio nesta calçada inundada de amores passageiros, corações despedaçados, tristezas reprimidas. O perigo, agora, o cerca contemplando o medo daqueles olhos fixos feitos frestas para ideias vãs. Ele não é ele mais. Seu rosto fora distorcido por suas mãos sujas pela lama da rua enquanto passara-a em seu rosto conturbado. É amor. E dói. E o perigo revela-se humano com rosto, cabelos compridos, unhas vermelhas, seios fartos, tez morena e calor nos olhos. O perigo se senta ao lado dele, fitando os olhos amendrontados que ele carregava em meio a face, aquecendo com um vento de ternura. É manhã. E chove fino. E traz consigo todo o nascer do sol que reflete seus raios nestas gotículas fortes que caiem do céu. O rapaz acorda, trêmulo de olhos vermelhos, e vê que dormira ao lado da pessoa que o fizera ali está. Ele sente o perigo do reencontro em sua tez alva.

Há calafrios. Há também amor, e a ele não era compreensível. Pela tarde que antecedera sua bebedeira jurava a si nunca mais dizer-se o nome dela em si, jurara amar como quem ama o inimigo que te mata com ódio na hora de sua própria morte, jurara apenas nunca mais amar. E, agora, de nada adiantara seus falsos juramentos, suas faltas expectativas, seu falso ódio. Amava, e naquele momento em que pôde observar que o perigo que adormece ao seu lado foi ao seu encontro dentre penumbras que assombram todos que por ali passavam, ele fora capaz de compreender. Seu amor, que nunca ecoou aos quatro ventos o sentimento que sentira por ele, que nunca caçou feito loba por sua companhia, que nunca inundou seu coração de esperanças, ainda era seu amor, ainda que sejas perigoso. Perigosa.

E os dois se mantiveram adormecidos, na Cidade Sem Destino, na Rua Dos Apaixonados. E se aqueceram, na quietude dos seus sentimentos, sonharam.